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Reflexões sobre a saúde mental em nosso tempo

Atualizado: 2 de jul. de 2025




Quando entro nas redes sociais vejo uma infinidade de posts sobre saúde mental, desde memes a artigos científicos, passando por podcasts, relatos pessoais, etc, o algoritmo com certeza sabe que me interesso pelo assunto e me manda essa enxurrada de conteúdo. Alguns engraçados, outros pertinentes, outros cheios de clichês e desinformação. Mas percebo que isso não acontece apenas comigo. Há de fato uma popularização de assuntos ligados à saúde mental nos últimos anos. 

Assisti recentemente o documentário da ginasta Simone Biles (Netflix 2024).Quando alguém influente e famoso fala de saúde mental isso sem dúvida causa interesse e identificação entre as pessoas. O que é muito salutar pois acaba abrindo espaço para que outras pessoas exponham suas dificuldades e angústias, contribui para quebrar tabus e preconceitos e incentivam as pessoas a procurarem ajuda especializada. 

A neurodiversidade e os transtornos mentais sempre existiram pois são inerentes à condição humana. Ser humano é ser diverso, diferente. Cada um com seu temperamento, estrutura de personalidade, história familiar e de vida. 

Exigências do mundo competitivo

O que chama atenção é o adoecimento geral:  ansiedade, pânico, depressão, burnout, problemas de atenção e insônia são queixas comuns. Será que apenas não falávamos sobre isso há 50, 70 anos? Será que somente a diminuição de tabus e preconceitos acerca da saúde mental explica esses assuntos estarem na rodas de conversas entre amigos, na mídia, no aumento do número de pessoas medicadas e tendo acompanhamento psicoterápico? 

Pode ser, e, certamente, isso é uma parte significativa quando pensamos sobre o tema. Mas é, na minha opinião, acima de tudo um sintoma de uma sociedade que está se percebendo doente. Não que antes, em outros momentos da história e em outras organizações sociais não se tinham pessoas adoecidas, no entanto, é inconteste que nosso modo de vida é com absoluta certeza gerador (amplificador?) de grande parte dos transtornos que temos hoje. 

A neurodiversidade e os transtornos mentais sempre existiram pois são inerentes à condição humana. Ser humano é ser diverso, diferente. Cada um com seu temperamento, estrutura de personalidade, história familiar e de vida. 

Anestesiados, passamos grande parte do nosso dia tendo interações virtuais, fazendo compras online, jogando ( alguns jogos de azar!), respondendo mensagens com a urgência de  um médico que tem a vida de um paciente em mãos ou o Super Homem prestes a impedir que uma hecatombe aconteça e aniquile toda a humanidade em segundos.

Tudo é para o agora, tudo é urgente. É preciso otimizar ao máximo o tempo, produzir enquanto se dorme. Uma sensação de nunca fazer o bastante, de sempre estar em falta, seja com o trabalho, com a família, com os amigos, consigo mesmo. As exigências da vida (pós) moderna criam uma expectativa que se pararmos bem para refletir, nos daremos conta de que… jamais daremos conta de tudo!

A presença e atuação massiva que temos nas redes sociais, onde é possível acompanhar a intimidade de pessoas que nunca encontraremos na vida, cria ideais de comportamento, de consumo, de vidas padronizadas, como se existisse um modelo de pessoa, um modelo de relação, um modelo de vida a ser atingido, copiado e quem ao menos não se aproxima disso está vivendo errado. 

A busca desenfreada por ter coisas, consumir e o medo da falta (emprego, dinheiro) gera um estado de alerta constante. Uma necessidade de sempre querer e precisar de mais para corresponder às exigências desse mundo, além de é claro, conseguir meios de subsistência como alimentação e moradia, realidade massacrante da maioria da população. Soma-se a isso o medo da violência em médias e grandes cidades. Não há como esse estado de hipervigilância ser algo benéfico.  


Somos estimulados o tempo todo, nosso cérebro está sempre ávido por estimulo, a palavra dopamina esta íntima de todos nós. Esse neurotransmissor está relacionado à motivação e à recompensa e costuma ser liberado em atividades prazerosas e situações excitantes. 

Responsável pelas sensações que sentimos quando estamos apaixonados, quando consumimos alimentos apetitosos ou substâncias como álcool e outras drogas, a dopamina é (simplificando) o motor que faz a gente buscar sempre mais do que dá prazer fácil e se viciar em algo. Nunca na história da humanidade, o cérebro humano foi tão inundado pela dopamina. Isso certamente traz repercussões no funcionamento cerebral e na saúde mental que ainda não se conhecem exatamente quais são. 

Eis o coquetel explosivo para o adoecimento mental (generalizado) do nosso tempo. Somado a isso a biografia, história individual de cada um. Nunca foi tão importante cuidar da saúde mental como agora. Há várias maneiras de fazê-lo e cada um de nós deveria ter o direito de poder encontrar a sua. Infelizmente isso ainda é privilégio de poucos. Tema para outra conversa.



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