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Reflexões sobre a saúde mental em nosso tempo

Atualizado: há 3 dias




Quando entro nas redes sociais vejo uma infinidade de posts sobre saúde mental, desde memes a artigos científicos, passando por podcasts, relatos pessoais, etc. O algoritmo com certeza sabe que me interesso pelo assunto e me manda essa enxurrada de conteúdo.

Alguns engraçados, outros pertinentes, outros cheios de clichês e desinformação. Mas percebo que isso não acontece apenas comigo então concluo que há de fato uma popularização de assuntos ligados à saúde mental nos últimos anos. 


Assisti recentemente o documentário da ginasta Simone Biles (Netflix 2024) e acredito que quando alguém influente e famoso fala de saúde mental isso sem dúvida causa interesse e identificação entre as pessoas. O que é muito salutar pois acaba abrindo espaço para que outras pessoas exponham suas dificuldades e angústias, contribui para quebrar tabus e preconceitos e incentivam as pessoas a procurarem ajuda especializada. 


Exigências do mundo competitivo

A neurodiversidade e os transtornos mentais sempre existiram pois são inerentes à condição humana. Cada ser humano tem seu temperamento, estrutura de personalidade, história familiar e de vida. Ser humano é ser diverso, diferente, único.

O que chama atenção atualmente é o adoecimento geral:  ansiedade, pânico, depressão, burnout, problemas de atenção e insônia são queixas comuns. Mas será que apenas não falávamos sobre isso há 50, 70 anos? Será que somente a diminuição de tabus e preconceitos acerca da saúde mental explica esses assuntos estarem nas rodas de conversas entre amigos, na mídia, no aumento do número de pessoas medicadas e tendo acompanhamento psicoterápico? 

Pode ser, e, certamente, isso é uma parte significativa quando pensamos sobre o tema. Mas é, na minha opinião, acima de tudo um sintoma de uma sociedade que está se percebendo doente. São sintomas do "mal do (nosso) século.


A neurodiversidade e os transtornos mentais sempre existiram pois são inerentes à condição humana. Ser humano é ser diverso, diferente. Cada um com seu temperamento, estrutura de personalidade, história familiar e de vida. 

Anestesiados, passamos grande parte do nosso dia tendo interações virtuais, fazendo compras online, jogando ( alguns jogos de azar!), respondendo mensagens com a urgência de  um médico que tem a vida de um paciente em mãos ou do Super Homem prestes a impedir que uma hecatombe aconteça e aniquile toda a humanidade em segundos.

Tudo é para o agora, tudo é urgente. As 24 horas que cabem em um dia não são mais suficientes, nossa vida já não cabe mais num dia. Tudo é feito na velocidade X2 e quem não se encaixa, fica pra 'trás'.

É preciso otimizar ao máximo o tempo, produzir enquanto se dorme. Uma sensação de nunca fazer o bastante, de sempre estar em falta, seja com o trabalho, com a família, com os amigos, consigo mesmo.

As exigências da vida (pós) moderna criam uma expectativa que se pararmos bem para refletir, nos daremos conta de que… jamais daremos conta de tudo!


A presença e atuação massiva que temos nas redes sociais, onde é possível acompanhar a intimidade de pessoas que nunca encontraremos na vida, cria ideais de comportamento, de consumo, de vidas padronizadas, como se existisse um modelo de pessoa, um modelo de relação, um modelo de vida a ser atingido, copiado e quem ao menos não se aproxime disso está vivendo errado. 

A tragédia anunciada

A busca desenfreada por ter coisas, consumir e o medo da falta (emprego, dinheiro) gera um estado de alerta constante. A necessidade de sempre querer e precisar de mais para corresponder às exigências desse mundo, além de é claro, conseguir meios de subsistência como alimentação e moradia, realidade massacrante da maioria da população está claramente adoecendo a todos .

Soma-se a isso o medo da violência em médias e grandes cidades. Não há como esse estado de hipervigilância acabe bem.  


A busca do prazer e da recompensa rápida e a exautão mental


Somos estimulados o tempo todo, nosso cérebro está sempre ávido por estímulo, a palavra dopamina esta íntima de todos nós. Esse neurotransmissor relacionado à motivação e à recompensa, costuma ser liberado em atividades prazerosas e situações excitantes. 

Responsável pelas sensações boas que sentimos quando estamos apaixonados, quando consumimos alimentos apetitosos ou substâncias como álcool e outras drogas ou realizamos tarefas, a dopamina é (simplificando) o motor que faz a gente buscar sempre mais do que dá prazer. Nesse cenário aparecem as redes sociais, o consumo de produtos de audiovisual, entretenimentro e notícias.


Nunca na história da humanidade, o cérebro humano foi tão inundado por esse excesso de dopamina e de informações. Muito provavelmente a avalanche de informação com a qual temos contato em questão de dias (talvez horas?) uma pessoa que viveu na Idade Média levou toda a vida pra ter. A quantidade de pessoas que nos relacionamos pessoal e virtualmente em um único dia um caçador e coletor da pré-história pode ter demorado uma vida toda pra encontrar.

Eis o coquetel explosivo para o adoecimento mental (generalizado) do nosso tempo. Isso certamente traz repercussões no funcionamento cerebral e na saúde mental que ainda não se conhecem exatamente quais são. Porém já podemos sentir. 

O fato é que nunca foi tão importante cuidar da saúde mental como agora. Há várias maneiras de fazê-lo e cada um de nós deveria ter o direito de poder encontrar a sua. Infelizmente isso ainda é privilégio de poucos. Tema para outra conversa.



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